Nunca foi propriamente um bem-amado para Lopetegui. Conheceu mais vezes os recantos ao camarote, na tribuna do Dragão, do que ao banco de suplentes, lá em baixo. Ao relvado mal lhe sentiu o gostinho. E só regressou a “casa”, ao seu FC Porto da meninice, por força de uma temporada a mil à hora em Paços de Ferreira — e de um Euro Sub-21 não menos bom. Ainda assim, não contava para o ex-treinador. E só começou a contar quando José Peseiro chegou para limpar cacos.

Ganhou o lugar no onze em três tempos. Mais do que que isso: é ele quem faz movimentar o onze. Sérgio Oliveira, hoje como nos últimos jogos, é quem remata mais — para ele não há longe nem perto, enche o pé e cá vai disto –, quem mais cruza, mais desmarca os demais, Sérgio é quem defende e ataca até ter a camisola a pesar de suor. O problema é que ele não pode estar em todo o lado. E hoje o FC Porto foi, como antes, como sempre esta época, mau, francamente mau. E nem as palavras duras de Pinto da Costa na quinta-feira — “Já falei com os jogadores: esta época acabou. Têm seis jogos para mostrar quem têm caráter e valor para ficar no FC Porto” — trouxeram novo arreganho à equipa. Se o campeonato terminasse hoje, o FC Porto tinha um médio no plantel. Só.

Gracias! Há que agradecer a Corona. Quem aguentou o primeiro quarto de hora no estádio da Mata Real, fê-lo usando certamente um mecanismo de manter as pálpebras abertas igual ao do filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” — está a ver, não está? Não se viu um só remate. Nem um. Pior: jogava-se mal, sobretudo a meio-campo, e sem velocidade. Mas o avançado mexicano lá chutou o marasmo. Literalmente. Eis o que se viu: Corona foi desmarcado na esquerda do ataque, só tinha Ricardo pela frente, mas não o enfrentou no um-contra-um, tão pouco cruzou para Suk e Varela na área. Corona fez uma simulação, depois outra — sem sair do sítio, diga-se –, tirou as medidas à baliza, e rematou dali mesmo, de fora da área. Defendi, o guarda-redes brasileiro do Paços de Ferreira, levantou a luva direita e ergueu o polegar, como tranquilizando a galera. É que o remate, que tinha por objetivo encontrar o ângulo e o golo, saiu muito por cima da barra.

O Paços de Ferreira só por uma vez criou perigo em toda a primeira parte. E foi só meio-perigo. Aos 20′, a saída dos postes de Casillas não foi lá muito ortodoxa, não senhor. E por pouco não deu em borrasca. Mas evitou males maiores. Minhoca, extremo baixinho mas veloz do Paços, esgueirou-se pela esquerda, tomou a frente a Maxi, e ia receber a bola na área. Valeu o Casillas a sair de carrinho e a cortar a bola com o braço direito, no chão. Depois foi aliviá-la dali, desse lá por onde desse, com chutão para a frente. Por pouco, muito pouco, a bola não passou entre o braço e a anca direitas do espanhol. Se passasse, Minhoca estava lá e a baliza sem ninguém.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Houston, we have a problem. Ou melhor: Peseiro, temos muito trabalhinho (tático) por fazer e muita moral para levantar. Aos 24′ foi demasiado evidente — e logo a dobrar. A bola queima nas botas dos jogadores do FC Porto. E ninguém se desmarca, como que receoso de a receber e ter que decidir o que fazer com ela. Se erram, as orelhas queimam e o lugar para o ano no plantel ficava em risco. Corona avançou pela direita, parou, olhou em volta, não viu ninguém por perto, voltou a avançar, a parar, a olhar, e novamente não havia ninguém em volta. Não cruzou para área. Não avançou mais. Lá apareceu Varela, que dali, da direita, foi ziguezagueante para o meio, mas voltou a sofrer do mesmo problema que Corona: não tinha linhas de passe próximas. Resolveu-se a rematar, de canhota. Acertou na baliza, mas estava lá Defendi para aninhar a bola.

Aos 35′, Sérgio Oliveira (quem mais?) avança pelo centro, galga metros com a bola nos pés, entrega-a a Corona e o mexicano, qual tabela, devolve-a a Herrera. E com Herrera já se sabe: há remate. Ainda de fora da área encheu o pé, acertou no alvo, mas a tentativa foi à figura de Defendi, que se ajoelhou e aninhou a bola. O intervalo estava a dez minutos de distância, mas não houve mais o que contar até lá.

José Peseiro, insatisfeito, mexeu logo no intervalo: Corona ficou no balneário e entrou Brahimi na sua vez. O treinador do Paços de Ferreira, Jorge Simão, não fez por menos e meteu Edson na vez de Osei. De um e de outro lado, a troca é de extremo por extremo. Simão acertou mais do que Peseiro. Porquê? Porque Brahimi ainda conseguiu ser pior que Corona. E Edson foi fundamental no jogo.

Aos 50′, o primeiro remate da segunda parte. É de Sérgio Oliveira, que continuava a ser (de longe, pelo transporte que faz da bola e pelos espaços que ocupa sem ela) o melhor portista em campo. Suk foi desmarcado na esquerda, esperou pelo apoio de Brahimi, nenhum foi capaz de desequilibrar na defesa do Paços de Ferreira, mas o coreano lá teve a clarividência de assistir Sérgio Oliveira à entrada da área. O português encheu o pé e atirou à baliza de Defendi. O remate, rasteiro, errou o alvo por um palmo. Saiu ao lado do poste direito a bola.

Depois de Edson, Jorge Simão fez também entrar Cícero. Se com o primeiro ganhou velocidade na ala direita, com o segundo ganhou altura na frente. E com isso foi empurrando o FC Porto para trás. Não que o Paços de Ferreira estivesse a criar perigo de maior; quase não rematava — e quando o fazia, era sem direção. Mas atacando o Paços, não ataca o FC Porto. Apesar disso, apesar de os da casa estarem por cima no jogo, foi o FC Porto a criar perigo aos 71′. Adivinhe lá por quem? Sérgio Oliveira, pois claro. Quando os outros complicam, mastigam e voltam a mastigar o jogo, Sérgio é prático e chuta. Seja lá de onde for. Layún estava na esquerda do ataque, não cruzou — e tinha meio mundo dentro da área –, veio com a bola controlada para o centro e passou-a a Sérgio (mas só quando não tinha mais quem driblar e mais o que complicar, diga-se). O remate do número 13 dos dragões só não deu em golo porque Defendi foi desviar a bola com a luva direita no relvado e rente ao poste esquerdo. Que remate. Que defesa melhor ainda.

Mas o Paços de Ferreira sabia ao que vinha na segunda parte — e sobretudo ao que não foi na primeira. Queria a vitória. E consegui-a aos 80′. Foi o 10.º golo de Diogo Jota (que já assinou pelo Atlético de Madrid) na Primeira Liga. Edson estava só na direita, com Layún à sua frente. Tentou fintá-lo uma vez e outra. Nunca conseguiu ultrapassar o mexicano. Como a jogada não avançava, surgiu Bruno Santos (o defesa direito do Paços) a desmarcar-se nas costas de Layún — mas com Sérgio Oliveira a controlar-lhe os passos. Bruno lá recebeu o passe de Edson, lá deixou Sérgio a apanhar papéis (a quem joga como ele joga, perdoa-se tudo) e cruzou para a área, um cruzamento rasteiro e deixando os defesas portistas em contra-pé. Surgiu na área Diogo Jota a rematar forte e sem hipótese de defesa para Casillas. Surpresa? Só para quem não viu a segunda parte e o Paços de Ferreira a crescer no jogo com as entradas de Edson e Cícero.

O mal estava feito. E o FC Porto ainda tentou atenuá-lo. Mas quando não eram os seus avançados a errar, era Defendi a segurar a vantagem do Paços. Aos 85′ o guarda-redes brasileiro provou que estava mesmo numa noite “sim”. Herrera, à esquerda, cruzou longo para a área, para o segundo poste, André Silva antecipou-se aos defesas do Paços e atacou rapidamente a bola. Rematou em desequilíbrio, André, quase no chão, mas ainda assim na direção da baliza. Defendi defendeu por instinto para canto. Mas o melhor estava guardado para fim. Mesmo, mesmo para fim. Foi aos 96′ da compensação. Ali, onde Defendi foi desviar a bola, vive, dizem, uma coruja, que lá fez o ninho. Maxi cruzou à direita, Suk surgiu ao primeiro poste a cabecear, e fê-lo na direção do canto superior direito da baliza do Paços de Ferreira. O guarda-redes brasileiro voou (literalmente) e desviou para canto no último suspiro do FC Porto no jogo.

Contas feitas, o FC Porto voltou a perder. Pela segunda jornada consecutiva, algo que não se vê há seis temporadas. Chega? É mais do que suficiente? Não. Ainda é possível recuar mais. Esta foi a 13.ª derrota do FC Porto na época. Pior, só em 2001/02. A julgar pela amostra, Pinto da Costa vai ter que puxar pelo livro de cheques no fim da época para contratar um plantel novo. E pela vassoura, para varrer os cacos de quem não vai continuar no Dragão.