Há filmes que divertem, há filmes que encantam, há filmes que interpelam e há filmes que doem, como é o caso de Adolescência, uma série da Netflix, em quatro episódios, sobre a delinquência juvenil.
Já muito se disse e escreveu sobre esta brilhante produção, que teve uma enorme repercussão. Não houve exagero nessa reacção, nem no que se disse sobre a excelência da realização ou da qualidade dos actores, nomeadamente do jovem Owen Cooper, a quem coube, como Jamie Miller, o papel principal; e de Stephen Graham, que actua como seu pai, Eddie Miller. Também não se pode esquecer Erin Doherty, a psicóloga Brion Ariston, que se enfrenta com Jamie num tenso duelo verbal, em que ela quer conhecer a consciência dele e ele simula uma inocência forçada, numa sessão que ocupa, por completo, um dos mais dramáticos e intensos episódios da série.
Não é possível ignorar a requintada sobriedade – desculpe-se o intencional paradoxo – da série que, embora não retrate nenhum caso real, parece ser, mais do que uma ficção cinematográfica, uma reportagem jornalística. Com efeito, não há recurso a sofisticados artifícios de realização, não há efeitos espectaculares, nem truques mágicos ou multidões ululantes preenchendo, com a sua fúria, o pequeno écran. Não se assiste à prática do crime, não se vê o corpo mutilado da vítima, nem a compreensível dor e raiva da sua família, que nunca aparece. No entanto, esta série é tão brutal que, dificilmente, teria sido possível construir um enredo mais exigente em termos emocionais. Dói, dói mesmo muito, precisamente porque o espectador é confrontado com a dureza nua e crua da realidade. A realidade pura e dura: sem maquilhagem, sem filtros, sem desculpas, sem fugas, sem adoçantes.
O intróito da série não poderia ser mais forte. Às seis e poucos minutos da manhã, um pelotão da polícia de choque invade a casa de uma família da classe média inglesa. Uma dezena de polícias armados até aos dentes fariam supor que vão capturar uma poderosa organização terrorista, ou um perigoso bando de criminosos, mas não é o caso. Não batem à porta, que arrombam, surpreendendo a dona da casa e mãe do protagonista, de roupão, na cozinha, eventualmente preparando o pequeno almoço familiar. A filha, que é também a única irmã de Jamie, já iniciou as suas rotinas diárias, na preparação de mais um dia de escola. O pai, estremunhado pelo insólito estrondo matutino, reage com estupefacção, pressupondo que aquele despertar é apenas um medonho pesadelo, não mais do que um equívoco: só um fatal engano poderia explicar aquela violenta intromissão na sua casa, na sua família, na sua vida.
Mas não, não é um sonho, não é uma ilusão, não é uma fantasia, mas a realidade, em toda a sua evidência dramática, que foi perturbar a pacatez daquela família, igual a tantas outras. E é assim que, sem saber como nem porquê, os Miller se precipitam na vertigem de um drama que os arrasta para a desgraça, para o desespero e para a vergonha. Num breve instante, aquela existência pacífica desaba com fragor, como se todas as forças do mal se levantassem contra Jamie e a sua família e os devorasse, ao som das gargalhadas estrídulas dos piores demónios e sob os olhares atónitos e gulosos de uma vizinhança surpreendida por se deparar, de madrugada, com tamanho rebuliço à porta daqueles vizinhos, de quem ninguém suspeitaria coisíssima nenhuma.
O clímax acontece quando, finalmente, o detective que chefia a operação, precedido pelos agentes das forças especiais, entra no quarto de Jamie que, ainda deitado, assiste aterrorizado àquela cena dantesca. O seu olhar, num rosto de criança, expressa um misto de espanto e de medo, apesar dos treze anos da sua incipiente adolescência.
É a um Jamie assustado que é dada ordem de prisão, por suspeita de ser o autor do homicídio de Katie Leonard, uma colega da escola. Naquele momento crucial, o mais novo dos Miller deixa de ser o jovem despreocupado que até então tinha sido. Da sua face imberbe cai a máscara da inocência que se lhe supunha afivelada. Afinal não é um miúdo como os outros, não é um jovem sonhador, não é um rapaz despreocupado e alegre, como seria próprio da sua idade, da sua família e do seu meio. Já não é alguém que tem pela frente uma vida inteira que lhe sorri, nem que pode continuar a usufruir da ternura de um lar, do carinho de uma mãe e de um pai, da amizade de uma irmã e de uns amigos e colegas. Não, Jamie é um alegado assassino, talvez um monstro, alguém que, porventura sem se aperceber, se agrilhoou para sempre ao trágico destino da jovem a quem tirou a vida, num impulso irracional de ódio, não apenas contra a desgraçada vítima, mas sobretudo contra os seus fantasmas, as suas frustrações, a vacuidade da sua vida tão cheia de tantas coisas, mas tão vazia do essencial.
Quando Jamie é transportado, na carrinha da polícia, para a esquadra onde vai ser identificado, interrogado e detido, a aflição transparece no seu olhar inquieto e irrequieto, desesperado, à procura do pai, que insiste que tudo não passa de um engano. É verdade que o tratamento a que o jovem Miller foi sujeito na sua captura e detenção foi, desde o primeiro momento, brutal. Mas desengane-se quem queira fazer dessas imagens tão duras um pretexto para arremeter contra os métodos policiais. Jamie é sempre tratado com dignidade, com respeito, até com alguma condescendência, mas sem ignorar o peso imenso da suspeita que sobre ele pende. Mesmo tratando-se de um menor, não há exagero na forma como é interpelado pelas forças policiais.
É verdade que o adolescente Jamie tem uma relação tóxica com as redes sociais e uma mórbida dependência do mundo virtual. Mas o problema não está nas condições socio-económicas, nem em nenhum hipotético trauma de infância, porque os pais dão-se bem, não há dificuldades económicas, não há dependência em relação à droga ou ao álcool, não há doenças congénitas, não há violência doméstica, não há insucesso escolar, não há disforias de género, nem problemas de identidade sexual, não há perturbações psíquicas que excluam a responsabilidade do principal suspeito de um terrível crime. E é essa nudez fria da verdade o que mais dói, porque não há forma de fugir à evidência de que Jamie é, afinal, um assassino. No interior de cada ser humano há a hipótese do maior bem e do pior mal. Como provou Hannah Arendt, não é preciso ser um monstro para ser um assassino: é a banalidade do mal. E isso diz tudo de todos nós, de cada um de nós.
Numa atitude desesperada, o pai refugia-se na improvável hipótese de o seu filho ter sido confundido com outra pessoa, que teria sido a assassina da jovem Katie, esfaqueada até à morte. Só pode ser. Jamie, por sua vez, diz uma e outra vez que não fez nada. Quando lhe é dito que, sendo menor, tem direito a fazer-se acompanhar por um adulto que o represente, descarta o assistente social que lhe é proposto e que não conhece de lado nenhum, para pedir a presença do pai. Não há, portanto, nenhuma crise na sua relação com o progenitor que é, afinal, em quem confia naquela situação aflitiva. Mas quando a evidência do crime – que, por ter ocorrido no espaço público, ficou registado numa câmara de videovigilância e, por isso, não admite qualquer dúvida quanto à intervenção de Jamie – Eddie colapsa, repelindo até o toque do filho culpado que, em vão, tenta uma tímida aproximação. Mas, pouco depois, ambos se abraçam num gesto que expressa o seu mútuo desespero e toda a tensão daquele momento: apesar da sua irrefutável culpa, Jamie continua a ser o seu filho, e ele o pai.
Adolescência não tem um happy end. Não há violinos, nem manhãs que cantam. Há apenas a brutalidade de um crime horroroso e de um jovem assassino, que podia ser um de nós, ou um dos nossos, igual a tantos outros miúdos que vivem como ‘zombies’ no mundo virtual das redes sociais e que, apesar de terem tudo, nada têm.
É o que resta de uma vida, de uma família e de uma sociedade sem Deus, o grande ausente. Afinal, não há bons selvagens, porque a lei da selva é impiedosa. Deus é amor (1Jo 3, 8.16) e, por isso, só Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6).