Henrique Gouveia e Melo já tem movimento cívico de apoio, já tem site oficioso e já tem slogan de campanha: “Honrar Portugal”.
Se deixou as coisas chegar a este ponto é porque será mesmo candidato a Presidente da República, o que deverá oficializar no final de Maio, depois das eleições legislativas.
Porque é que um militar, cuja existência o país ignorava há quatro anos, cujo pensamento político é ainda largamente desconhecido, de quem não sabemos opiniões fundamentais e estruturadas como o entendimento sobre o que deve ser a relação entre o Presidente da República e os governos, a convocação de referendos, a política externa e de defesa ou sobre matérias como o aborto, a eutanásia, ou a regionalização, dizia, como é que uma pessoa de quem sabemos tão pouco aparece sólida e consistentemente a liderar as sondagens para as presidenciais por tão larga margem?
Não tendo estudos de opinião qualitativos que nos possam dar respostas a essa questão concreta, resta-nos a percepção do que possam ser as razões para aquilo que, para alguns, pode ser um tiro no escuro.
Primeiro, vamos ao início de tudo. Henrique Gouveia e Melo foi apresentado ao país quando passou a liderar a equipa que coordenou o plano massivo de vacinação durante a pandemia, no início de 2021. O plano não tinha começado bem. Sob a liderança do ex-secretário de Estado da Saúde Francisco Ramos, sucediam-se as notícias de violação das regras de prioridade da vacinação, numa altura em que os stocks do medicamento eram ainda escassos.
Gouveio e Melo chegou e a sua primeira mensagem foi: “vamos apertar mais as regras”. Depois, todo o plano foi executado de uma forma rara em Portugal: planeada, organizada, rigorosa, sem atrasos e bem comunicada. Os cidadãos foram tratados com dignidade, conforto e conveniência, coisa estranha no país onde ainda é comum ter que se ir, às quatro da manhã, para a fila de um centro de saúde ou Loja do Cidadão apenas para obter uma senha para ser atendido, por obséquio dos serviços.
Numa frase, a equipa liderada por Gouveia e Melo fez com rigor no país onde o Estado arrasta os pés para fazer e muito menos com rigor.
As regulares idas à televisão com uniforme militar a rigor deram a componente simbólica e cénica da forma como estava a ser executada a tarefa.
Depois, temos o contexto do exercício da função presidencial. Suceder a Marcelo Rebelo de Sousa é necessariamente diferente de suceder, por exemplo, a Cavaco Silva. O recato e tom austero de um contrasta com a hiperatividade e ultra presença mediática do outro. No caso de Marcelo, o problema não estará nas selfies, nos beijinhos e na popularidade. Essa é a componente bondosa, simpática e empática de Marcelo. O problema, ao longo destes nove anos, esteve na confusão entre essa proximidade dessacralizada do povo e o “gato sapato” que o Presidente fez da função. Ao comentar tudo a todo o tempo, Marcelo desvalorizou a sua palavra, uma das formas de intervenção mais comuns e eficazes dos presidentes. Ao aceitar ser, com frequência, ao longo de oito anos, uma espécie de vice-primeiro ministro de António Costa, Marcelo penhorou o distanciamento requerido aos árbitros. Ao ceder à eterna tentação de passar recados em off através da comunicação social, Marcelo trouxe ao exercício do cargo uma componente fofoqueira e de jogos táticos de bastidores.
Neste contexto, o próximo presidente terá de recuperar a solenidade, autoridade e peso institucional que o cargo requer. A figura do militar que cumpre com rigor assenta como uma luva a essa necessidade.
Por fim, o percurso pessoal. Gouveia e Melo fez carreira militar sempre à margem dos partidos e da política.
E pouco adianta entrar em discussões filosóficas sobre o que é ser político, se todos o somos a partir do momento em que temos consciência de comunidade e sociedade ou se, pelo simples facto de entrarmos numa corrida eleitoral, já estamos a sê-lo de forma efectiva (claro que sim).
O senso comum diz-nos que Gouveia e Melo é um militar aposentado que agora quer dar o seu contributo ao país exercendo um cargo político pela primeira vez.
E esta característica é ouro eleitoral num país que dá sinais de fadiga dos protagonistas que vão exercendo essas tarefas e da forma como o fazem, desde o debate público e parlamentar diário ao fraco desenho, execução e eficácia de medidas políticas.
Aqui chegados, todos os acontecimentos recentes que nos levaram às eleições antecipadas são mais uma boa ajuda involuntária à candidatura de Gouveia e Melo. O país dos políticos profissionais bem pode agora lançar alertas, pedir cautelas, acenar com receios e desaconselhar aventuras materializadas sobre quem sabemos tão pouco. Mas foi esse país político que abriu a porta a Gouveia e Melo e agora, dia a dia, a vai escancarando.