A minha prima Alexandra que vive na Suíça levou o meu pai a um jogo do Sporting. O meu pai é do Sporting e nos seus quase 78 anos de vida nunca tinha ido ao Estádio José Alvalade. Foi preciso vir a minha prima de longe para fazer aquilo que os que estão perto nunca tinham feito.
Se o meu pai fosse um sportinguista sério, certamente já teria estado no Estádio José Alvalade não apenas uma, mas muitas vezes. Mas o meu pai, apesar de ser do Sporting, nunca foi um sportinguista. Pelo menos, é assim que na minha cabeça eu divido a questão: ser do Sporting ou ser sportinguista.
No meu caso, por exemplo, a tradição familiar prossegue ainda que adulterada: eu sou do Benfica mas não sou benfiquista. Ser de um clube é, para mim, a adesão passiva e possível a uma religião que não se pratica realmente. Já ser benfiquista ou sportinguista significa ser praticante.
Sendo eu um homem religioso, reconheço que tenho olhos brandos para a ausência de prática da religião do futebol. E a tolerância que tenho para quem gosta de futebol sem praticar a religião dele é uma qualidade que me transmitiu o meu pai. O meu pai foi um bom pai também por me fazer gostar de futebol sem excessos.
Nos 24 anos que vivi na mesma casa do meu pai, conheci bem os excessos dele. Agora que estou quase a chegar ao mesmo número de anos vivido fora de casa dos meus pais, admito até que ainda hoje me marcam os excessos do meu pai, sobretudo os que se tornaram também meus. Sim, gostava de não prolongar o que no meu pai é excessivo.
Os meus filhos já conhecem alguns dos excessos do avô por conta do pai deles. Gostava que assim não fosse mas assim é. Ao mesmo tempo, e por conta de prolongar alguns dos excessos do meu pai, fui levado a olhar para eles de outra maneira. Quando precisamos que os nossos filhos nos perdoem os excessos, inclinamo-nos para perdoar os excessos dos nossos pais.
Mas o que lamento mais não é prolongar alguns dos excessos do meu pai: é não prolongar aquilo que nele sempre foi moderado. O meu pai ser do Sporting e nunca ter ido ao Estádio José de Alvalade é também o que fez dele um homem mais virado para os outros do que para as suas clubices. E disso, quase nada herdei.
Apesar de eu não praticar a religião da bola, vivo encafuado nas minhas clubices, nos meus partidos, nos templos das minhas devoções. Falta-me do meu pai não praticar essa tralha de equipas, claques e grupos. Queria ser um não-praticante como o meu pai para, como ele, viver mais para os outros do que para mim.
A minha prima Alexandra, ao levar o meu pai pela primeira vez ao estádio José Alvalade, gravou um vídeo do momento. À distância, que ainda era maior porque eu estava no Brasil na altura, vi aquela cabeça grisalha, enfiada numa boina verde-escura, a aproveitar a experiência tardia com a jovial alegria moderada do Henrique Cavaco. Como quis ser do Sporting e estar na equipa do meu pai naquela hora…
(Para o meu pai no Dia do Pai.)