Aqui há umas semanas andei no meio de relíquias. Eram relíquias mesmo, não gente velha ou tralhas antigas. O Museu de São Roque promoveu uma exposição chamada “8 Relíquias, 8 Santos e muitas coisinhas”. O Professor António Camões Gouveia convidou-me para participar e não lhe sei dizer não. Desde que nos encontrámos pela primeira vez, há uma meia-dúzia de anos para falar sobre Lutero, que anseio por cada oportunidade de aprender com este homem. Neste caso, por exemplo, o encontro era inesperado: afinal, o que tem um pastor evangélico como eu a ver com relíquias e santos, matéria olimpicamente rejeitada pelo Protestantismo? Mas já me habituei a aprender com o Professor António e com as aventuras que me propõe. Digo-lhe sempre sim.

A exposição foi-me muito instrutiva. Encantaram-me os quadros dos olhos de Santa Luzia, representados, por exemplo, em bandejas, como portadores de luz num mundo de trevas, à custa da tradição de que lhe teriam sido arrancados. Impressionou-me Santa Rita de Cássia, com um prego espetado na testa que, segundo a tradição, seria um dos espinhos da coroa de Jesus. No caso de uma e no caso de outra, relíquias expostas arrastam-nos de volta para um mundo antigo em que boa parte do melhor relacionamento que podíamos ter com Deus era avaliado assim, na possibilidade do toque físico destes objectos tidos por sagrados. Para mim, que sou protestante num país epidermicamente católico (em Portugal o Catolicismo está na pele mesmo que não esteja no coração), confirmei a nossa obsessão pelo tacto.

Os portugueses são tacteadores por excelência. Havia aquela piada em que dizíamos que os espanhóis vêem com as mãos mas nós não somos diferentes. Se alguma coisa existe, precisamos de tocar (e abstenho-me de nos comparar com Tomé porque o ponto do meu argumento é outro). Neste mesmo embalo táctil, recebi a determinada altura uma pergunta: “como exprimem os Protestantes os seus afectos sem esta dimensão do físico e do objecto?” O mais fácil em momentos assim é a minha resposta vir em modo desnecessariamente defensivo, por me sentir o bicho estranho. Afinal, mesmo que os portugueses sejam menos católicos, continuam dados a outro tipo de relíquias e a outro tipo de santos. Não querendo exagerar no contraste, puxei, no entanto, por uma comparação.

Se pensarmos em algumas das religiões mais influentes do mundo, vamos ter de pensar no Judaísmo e no Islamismo. Tendo em conta que Portugal é um país católico, partilhamos com estes credos a raiz. De Abraão veio este povo todo, sejam judeus, cristãos ou muçulmanos. Como protestante, naquele evento tão irremediavelmente ligado à tradição católica, competia-me lembrar que, ao não representar a mesma tradição de religião táctil de afectivas venerações físicas e relíquias, tinha com judeus e muçulmanos uma mesma compreensão de adorar o Deus abraâmico sobretudo verbalmente. E, tentando dizer o óbvio de uma maneira educada, afirmei algo como: “meus queridos, para boa parte do mundo que se devota ao Deus de Abraão, as imagens e os objectos não são desejados mas evitados”.

Logo, e mesmo que não seja intencional, perguntar a um judeu, a um muçulmano ou a um protestante como ele exprime a sua sensibilidade sem objectos é, no mínimo, insensível. A pergunta de uns já traz a categoria que é conscientemente rejeitada por outros. Ainda que não seja fruto de uma indiferença premeditada, demonstra esta necessidade de materialização da devoção uma incompreensão persistente de boa parte do mundo além da casa tão mobilada que o Catolicismo é. Se fizermos umas contas mais por baixo do que por cima, o Judaísmo representa cerca de 0,2% da população mundial, Islamismo mais do que 20%, e Protestantismo mais do que 10%. Arredondando, e porque estes números são sempre estimativas, poderemos estar a falar de algo não tão longe assim de 40% do mundo. Quase metade do mundo, portanto, e só falando das tradições abraâmicas, adora mais pelo verbo falado do que pela veneração física.

Vivemos dias tristes em que parte deste mundo que quer adorar o Deus de Abraão pelo verbo falado está em guerra. Judeus e muçulmanos não têm a mesma fé que eu tenho (com todas as polémicas entre Catolicismo e Protestantismo, estou obviamente mais próximo de católicos do que deles), mas têm uma confiança no texto sagrado ligada à minha. Evangélicos como eu não sabem não amar Israel porque vivemos diariamente no livro que o criou. Peço ao Deus que não adoro com imagens nem com objectos que materialize paz naquela terra. Ele já o ensaiou antes, em carne e osso, quando a palavra se fez pessoa em Cristo, tangível, físico, fonte de todos os bons afectos—que o seu principado pacifique o que nenhum estado nosso consegue.