No século XVIII, com a megalomania habitual, os franceses convenceram-se de que tinham descoberto uma forma fácil de ficarem ricos com apostas — deram-lhe o nome “sistema Martingale”. A ideia deles era aplicar nos jogos de sorte e azar uma teoria de probabilidades absolutamente infalível. Ao atirar uma moeda ao ar, o jogador apostaria numa das faces, “cara” ou “coroa”. Se ganhasse, ótimo; se perdesse, só precisaria de dobrar a aposta e continuar a jogar. Segundo a lei das probabilidades, quanto mais jogasse, mais hipóteses tinha de acertar no lado escolhido da moeda. Por isso, continuando sempre a duplicar o valor apostado, mais cedo ou mais tarde acabaria por ganhar e por recuperar todo o dinheiro perdido até aquele momento.
Vamos imaginar que um jogador apostava 1 euro em como a moeda ficava com “cara” para cima. Se perdesse, colocava 2 euros na aposta seguinte. Ganhando, ficava com 2 euros, o que lhe permitia recuperar o euro perdido na aposta anterior e ganhar um. Perdendo, voltava a duplicar a aposta, colocando 4 euros em cima da mesa. Se ganhasse, recuperava os 3 euros perdidos até ali e ganhava um. Se perdesse, apostava 8 euros. E assim sucessivamente.
Como os franceses do século XVIII perceberam ao fim de algum tempo, havia um pequeno problema com o sistema Martingale. Ou melhor: dois. Quer dizer: três. É que, para esta teoria de probabilidades resultar, o apostador era obrigado a reunir três características: tinha de ter uma riqueza sem limites (porque não sabia durante quanto tempo precisaria de dobrar as apostas); tinha de fazer apostas sem limites (porque muitos casinos impedem que se continue a partir de um certo valor); e tinha de ter uma disponibilidade de tempo sem limites (porque é impossível saber quando é que se vai acertar). Se lhe faltasse alguma destas três coisas, o jogador iria inevitavelmente à falência.
Como se viu, algumas pessoas acharam que era uma boa ideia aplicar o sistema Martingale ao “cara e coroa”. Mais tarde, outras pessoas acharam que era uma ideia sensata aplicar o sistema Martingale à roleta. Depois disso, ainda outras pessoas acharam que era uma ideia ajuizada aplicar o sistema Martingale aos mercados financeiros. Aquilo de que nunca ninguém se tinha lembrado era de aplicar o sistema Martingale à política. Ninguém exceto, claro, Pedro Nuno Santos.
À medida que os dias iam passando, o líder do PS foi olhando para a polémica da Spinumviva e decidindo dobrar as apostas. Primeiro, defendeu que era preciso fazer perguntas ao primeiro-ministro, mas entendeu que não se justificava a realização de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Depois, dobrou a aposta: afinal, era essencial termos uma Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso, mas não podíamos tirar conclusões apressadas. Depois, dobrou a aposta: afinal, havia “a suspeita” de que “os serviços não foram prestados” pela Spinumviva ou que, tendo sido prestados, “foram pagos por um preço muito superior ao que foi cobrado”, mas, mesmo assim, o PS queria evitar eleições antecipadas. Depois, dobrou a aposta: afinal, o PS preferia ter eleições antecipadas a negociar com o PSD os termos da Comissão Parlamentar de Inquérito e a abstenção na votação da moção de confiança.
Quando faz isto, Pedro Nuno Santos está a replicar o raciocínio dos franceses que no século XVIII queriam enriquecer a apostar no “cara ou coroa”. Mas está a esquecer-se das três condições de que o sistema Martingale precisa para resultar. Se parasse para pensar, perceberia que lhe faltam todas. Ele não tem uma riqueza ilimitada porque o capital político do PS é reduzido quando está a enfrentar um governo que durou apenas uns meses e quase só tomou medidas populares. Ele não pode fazer apostas ilimitadas porque o PS tem uma tradição e uma história que o impedem de adoptar as táticas provocadoras de um partido como o Chega. E ele não pode jogar por um tempo ilimitado porque as eleições são já daqui a dois meses.
Já sabemos que a polémica da Spinumviva envolve uma empresa que explora casinos. Mas Pedro Nuno Santos não se deve baralhar: ao contrário do que às vezes possa parecer, a política não é uma roleta.