Um partido com medo de existir
O PSD está de tal forma deprimido e inseguro sobre o que foi e o que pode ser que desistiu de ousar.
A campanha para as eleições directas no PSD é uma breve notícia de rodapé e a culpa nem é tanto da suposta falta de credibilidade de Santana Lopes nem do putativo provincianismo ou da rigidez mental de Rui Rio. A novela não interessa a ninguém porque os enredos dos candidatos deixam transparecer o complexo de culpa do realizador de curtas-metragens quando olha para o poder do cinema de Hollywood. O PSD está de tal forma deprimido e inseguro sobre o que foi e o que pode ser que desistiu de ousar. É incapaz de produzir líderes para o futuro como tantas vezes fez no passado. Não consegue esboçar nada mais do que meia dúzia de ideias vagas. Não tem nem energia nem determinação para desafiar a liturgia política imposta pelo Governo e avançar com propostas novas, reformistas e desafiadoras, capazes de interpelar um país que, como diz o Presidente-Rei, precisa de se “reinventar”. Talvez nunca como hoje o PSD esteve tão longe da realidade e das expectativas do país como está hoje. A modorra da campanha em curso é a consequência desse fracasso.
O mal não está na indefinição ideológica porque o PSD sempre foi um partido de vela latina, capaz de beneficiar do vento vindo de qualquer direcção. Rui Rio insiste que o partido é “do centro” ou que vai do centro-esquerda ao centro-direita, mas ao pedir “um novo contrato social que se afaste do discurso libertário anti-Estado” empenha-se mais em enterrar a era de Passos Coelho do que a construir uma nova era. E se Santana Lopes afirma que, “de nada interessa face à nossa riqueza e matriz ideológicas, rótulos de centro esquerda ou de centro direita”, não deixa de enfiar o chinelinho que o PS, o Bloco e o PCP usam ao dizer que não quer “um País obcecado com o ‘défice zero’, só pelo lado da despesa”. Rio ainda ousa ensaiar umas ideias sobre a reforma do parlamento, sobre a segurança social ou sobre a relação com o PS no próximo ciclo político. Fica assim muito à frente da tagarelice de Santana Lopes. Mas, na essência, quer um, quer outro, evitam arriscar o que quer que seja capaz de desafiar este aparente consenso sobre o país maravilhoso do post-troika.
Bem podem dizer que a campanha em curso tem como propósito cativar a simpatia dos militantes. Podem insistir que uma moção de candidatura não implica um programa como os que se apresentam quando em causa está a disputa de eleições legislativas. Pouco interessa. O mínimo que se pode dizer é que a desistência de abrir o jogo, de ousar pensar fora da hegemonia das políticas para o Estado ou para a Função Pública é apenas mais uma consequência da renúncia do PSD à sua própria forma de ser. O PS capturou a sua inteligência e desarmou a sua capacidade de ser alternativa. O PSD que outrora sabia desafiar o ar dos tempos para se ajustar aos ciclos de poder ou de oposição através de programas políticos versáteis tornou-se um monólito. A pobreza desta campanha, na forma ou no conteúdo, é apenas a revelação de um partido sem uma réstia de dinamismo e de capacidade para se reinventar.
Os tempos, bem se sabe, são duros para o PSD, fosse quem fosse o homem ou a mulher que ganhasse as próximas directas. O PS soube criar pontes à esquerda e tornou o sempre odiado Bloco Central numa miragem cada vez mais remota. O Governo conseguiu o supremo milagre de manter a austeridade ao mesmo tempo que sustentava o essencial da sua mensagem política na sua abolição. A esquerda gosta da devolução de rendimentos e a direita aplaude o respeito escrupuloso das regras do défice. Com esta caminhada no sentido de se transformar num perfeito “catch-all party”, o PS ocupou um amplo espectro político e ideológico que tanto ameaça sequestrar a esquerda extrema como encurralar a direita e o centro direita. Neste albergue, cabe tudo. Tanto se faz a apologia do crescimento como se protegem os interesses da função pública. Tanto se pressionam os preços da EDP como fazem perdões fiscais à Brisa. Tanto se esmifram os orçamentos da educação como se aumenta o quadro dos professores.
O PSD tinha uma forma coerente de se assumir neste cerco: era recuperar os seus pergaminhos anti-estatizantes, mais liberais na economia, mais próximos da iniciativa privada e mais desligados dos poderes dos sindicatos e da função pública. Mas, para o fazer, tinha de regressar ao programa de Passos Coelho – ou, numa visão mais distante, ao PSD liberal de Sá Carneiro. Não há outra via nem outro debate tão fundamental na sociedade portuguesa como o que opôs António Costa e Passos Coelho. Porque nesse debate está o essencial das opções em aberto nas democracias europeias. Mas, neste confronto é fundamental escolher e os dois candidatos não escolheram. Santana e Rio sabem que não podem apagar de vez a memória de Passos, mas ambos têm um pavor absoluto em defendê-lo de peito aberto. Por isso deixam-lhe leves elogios ao mesmo tempo que se juntam discretamente à esquerda no funeral do seu legado político. O PS de António Costa venceu definitivamente o debate do pós-troika e o PSD não sabe como sobreviver a esse drama.
Subliminarmente, toda a campanha de Rio e de Santana deixa subentendido o reconhecimento dessa vitória. Quer um, quer outro desistiram de uma via clara e alternativa. Como pode querer o PSD ser um partido capaz de desafiar o PS se, na prática, opta pela imitação em vez de lutar pela diferença, que segue a receita do poder em vez de articular uma estratégia de oposição? Não pode. Talvez Rui Rio seja capaz a prazo de impor a sua pose de gestor radical e obter lucros na comparação com António Costa. Talvez daqui até às próximas legislativas o próximo líder seja capaz de se lembrar que em 2015 o PSD e o CDS “maculados” pela prática da austeridade ganharam as eleições e consiga afinar um programa que estabeleça alternativas. Mas talvez o PSD se fixe em excesso na condição de partido sombra do PS e acabe por dar lastro ao crescimento do CDS.
O problema maior deste medo de existir do PSD, esta incontornável submissão que subliminarmente serve de elogio ao Governo e ao PS, não está tanto no destino de Santana ou de Rui Rio: está no equilíbrio do sistema partidário. Até os democratas da esquerda hão-de concordar que o país precisa de alternativas entre um bloco mais à esquerda e outro mais à direita. Precisa de escolhas entre programas de governo mais centrados no Estado ou nas políticas sociais e outras mais dirigidas para a competitividade da economia ou para a iniciativa privada. O PSD e os seus dois candidatos vegetam numa campanha de letargia e de indiferença porque decidiram obedecer ao pensamento-padrão inventado pelo PS e desistiram de escolher. Deviam saber que em política quem não escolhe não é. E é por não serem que, quer Santana, quer Rui Rio têm o que merecem: o desinteresse das pessoas cansadas de tácticas políticas, do mais do mesmo, do “são todos iguais”.
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