António Costa trocou o optimismo pelo pessimismo. Passos Coelho alertou que o diabo está à espreita. Marcelo convocou partidos e parceiros sociais para analisar a situação política. E, nos bastidores, há já quem dê por provável a realização de eleições antecipadas até Janeiro de 2017. Falso alarme? Talvez sim, talvez não. O certo é que o plano de António Costa para a geringonça consistiu, desde o início, em cimentar apoios através de medidas populares para o seu eleitorado para, mais tarde, forçar eleições e libertar-se das amarras dos seus parceiros. E, para que o plano funcione, António Costa não pode esperar muito mais. Por três razões.

Primeiro, porque o passar do tempo evidenciará os maus resultados da execução orçamental em 2016, tornando indisfarçável o quão errada está a estratégia económica do governo e dificultando o habitual passa-culpas para o anterior governo PSD-CDS. Ou seja, quanto mais tempo passar, maior a responsabilidade de António Costa face a uma eventual nova crise e maior o seu prejuízo eleitoral.

Segundo, porque as sondagens não apontam a alterações significativas nas intenções de voto. Desde Março, PS mantém-se nos 35%, PSD nos 32%, BE à volta dos 10%, CDS perto dos 7.5% e PCP um pouco acima dos 8% (Eurosondagem) – só numa sondagem da Aximage, lançada ontem, o PS aumenta ligeiramente a vantagem. No geral, (ainda) está tudo na mesma. Ou seja, não compensa ao PS adiar muito as eleições, tanto porque não está a crescer consistentemente nas sondagens como porque, estando no governo, a passagem do tempo aumenta a probabilidade de penalização eleitoral. Tal como as coisas estão, o melhor cenário para os socialistas é apostar numa coligação maioritária com BE.

Terceiro, António Costa não pode esperar muito mais para forçar eleições porque as relações no interior da geringonça deterioram-se. PS e BE, cada vez mais próximos politicamente, adoptaram uma relação preferencial, discriminando o PCP nas nomeações (como para os juízes do Tribunal Constitucional). Os comunistas não perdoaram e não têm abrandado nas exigências, indiferentes aos maus indicadores económicos e às necessidades de cumprir as metas do défice. Ou seja, neste contexto e sob pressão de Bruxelas, o PS encontrou no PCP um osso duro de roer, que dificultará as negociações e o prolongar da geringonça até às autárquicas.

Ora, nada disto se vislumbrou particularmente improvável – nem as consequências económicas da estratégia do governo, nem o impasse nas sondagens, nem a instabilidade interna da geringonça. Muito menos a evidência de que António Costa quer e está a preparar eleições desde que se sentou em São Bento. E, no entanto, quando tudo se começa a alinhar para que, mais cedo ou mais tarde, novas eleições sejam mesmo provocadas, PSD e CDS permanecem alheados do fundamental: recuperar os 700 mil votos que, entre 2011 e 2015, os dois partidos perderam e sem os quais não voltarão a governar.

Não, as eleições não se preparam alimentando conspirações sobre “legislaturas roubadas”. Nem com uma actividade parlamentar incipiente, que amontoa iniciativas legislativas sem relevância. E também não basta cruzar braços e esperar que tudo corra mal ao governo. Uma lição das legislativas de 2015 foi precisamente essa: se o desagrado com o governo PSD-CDS não se converteu numa transferência de votos para o PS, não é de esperar que agora suceda o inverso. E, contudo, desde que na oposição, PSD e CDS pouco mais têm feito do que isto: repetir a mensagem de que o caminho trilhado por António Costa é um atalho para o desastre.

Sim, é verdade. Mas, obviamente, não chega. À direita, faltam ideias próprias, novas, reformistas, cuja face não se resuma à contenção orçamental. Falta afirmar essas ideias no debate público, contra o imobilismo corporativo e contra o receio da impopularidade. Falta construir com essas ideias um projecto liberal que envolva os dois partidos, apontado a modernizar a economia e torná-la menos dependente do Estado. No fundo, falta recuperar para o presente as duas melhores características da coligação de 2011-2015. A de um compromisso para com reformas estruturais – como houve na administração pública, nas freguesias, nas rendas, no IRC, no mercado de trabalho. E a de um projecto político comum à direita, que ultrapasse as diferenças entre PSD e CDS. É que, como a geringonça provou, só através de uma coligação maioritária a direita regressará ao poder. Era bom que Passos Coelho e Assunção Cristas percebessem isso o quanto antes. É que, até lá, a direita não estará preparada para eleições.