Opinião
Falta de desapego
A economia portuguesa destaca-se nas comparações internacionais como um dos espaços caracterizados por maior endividamento público e privado, com forte dependência de fluxos externos para o suportar.
Com efeito, segundo dados de 2015, o endividamento do setor privado atinge cerca de 200% do PIB (85% do PIB no caso das famílias e 115% para as sociedades não financeiras) a que acresce o do setor público, representando cerca de 128% do PIB. Em termos de dependência do resto do mundo, a dívida externa situa-se em 223% do PIB. Esta realidade encontra contraponto numa taxa de poupança das famílias baixa (4,2% em final de 2015), num nível de capitalização das empresas reduzido com elevado rácio de serviço da dívida, e numa limitada utilização de capital em cada unidade de produto.
Estruturalmente, o nível de capital é reduzido, porque o rendimento é secularmente baixo e, ao longo do tempo, as políticas adotadas não parecem ter sido particularmente felizes na remoção desta desvantagem atávica. Por exemplo, o modelo de comércio ultramarino escolhido por Inglaterra ou Holanda fomentou a iniciativa privada e acumulação de capital ao contrário do português e espanhol. A elevada tributação, seja dos fatores trabalho ou capital, desincentiva o seu desenvolvimento. Os mecanismos de regeneração empresarial – instrumentos facilitadores de realocação de recursos – estão pouco oleados em Portugal. Uma empresa, concluído o seu ciclo de vida por incapacidade de responder às exigências concorrenciais, nem sempre dá facilmente lugar a outra. Por outro lado, a relativa pobreza não permite a libertação de recursos para acumulação de conhecimento, condicionando a qualidade da força de trabalho e direcionando-a para atividades menos produtivas.
Estes elementos favorecem outro fator mitigador da falta de poupança e da menor qualificação da mão de obra: a entrada de capital estrangeiro. Maioritariamente, as empresas não-residentes que se instalaram em Portugal (sobretudo nas décadas de 1980 e 1990) permitiram o acesso a novas técnicas produtivas, novas abordagens ao mercado, nova cultura laboral, acelerando a curva de aprendizagem. O capital estrangeiro desafia-nos no nosso próprio terreno, estimula-nos, espicaça-nos a combatividade.
E, sobretudo, importa valorizar a diferença e a inovação. Em tempos numa entrevista neste jornal, um português regressado de vários anos de exercício profissional no estrangeiro afirmava que o que mais o chocava no regresso a Portugal era encontrar os portugueses conservadores, no sentido de imobilismo. Apesar de nos pensarmos como inovadores e rápidos na absorção de novas tecnologias e novidades, a mudança e o seu desconforto custa-nos. Temos, geralmente, falta de desapego. Já nos perguntámos quantas vezes, em média, um português muda de casa ao longo da sua vida? Ou quantas vezes mudou de emprego? Quantas escolas frequentou? Em quantas cidades viveu? Quantas vezes vendeu a sua empresa e criou outra? Portugal necessita de maior desapego, maior abertura à diferença, e mais tomada de risco. Felizmente, as gerações mais jovens estão a incorporar e a gerir esta necessidade com aparente maior sucesso: um motivo de esperança.
Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico