A rentrée europeia vai esta semana ser assinalada pelo discurso do “Estado da União” de Jean-Claude Juncker, na quarta-feira em Estrasburgo, e pela cimeira dos Estados membros em Bratislava, na sexta. É de esperar, e de saudar, que as duas ocasiões sejam marcadas por demonstrações de unidade da União Europeia — incluindo a prevista (e invejável) descida do Danúbio de barco, na sexta-feira. Mas os europeístas devem desejar que essa saudável manifestação de unidade seja virada para fora, não para dentro. Ela deve visar reforçar a aliança das democracias à escala global — bem como a ordem internacional liberal que elas sustentam — e não satisfazer ressentimentos de clientelas corporativas caseiras.

Serão certamente bem vindas as medidas, entretanto ventiladas em círculos diplomáticos, de mais apertado controlo das fronteiras externas da União, incluindo registos de passageiros e um possível sistema de vistos electrónicos europeus. Esses serão sinais importantes para muitos eleitorados nacionais — que se sentem ameaçados por aquilo que legitimamente percepcionam como imigração sem controlo, num período marcado pelo terrorismo islâmico.

Mais discutível será o projecto — já antigo, mas até agora adiado — de criação de uma força militar sob comando central europeu. Esse passo deve ser cautelosamente discutido com a NATO. De nenhuma forma deveria poder contribuir para o enfraquecimento da aliança euro-atlântica que de facto tem sido o garante da paz na Europa desde o final da II Guerra.

Esta crucial aliança euro-atlântica está também em causa a propósito de recentes declarações de vários responsáveis europeus sobre o alegado fracasso das negociações do TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) entre a UE e os EUA. Este projectado tratado de comércio livre é de fundamental importância: para promover o crescimento económico nos dois lados do Atlântico — sobretudo na zona euro, onde tem estado preocupantemente ausente; mas também e sobretudo para reforçar os laços transatlânticos num mundo cada vez mais ameaçado por instintos protecionistas e autoritários.

Uma palavra relevante cabe aqui também ao Governo e ao Parlamento de Londres. Compete a ambos clarificar o sentido do Brexit. Vai o Reino Unido sair da União Europeia para se fechar numa “política industrial” proteccionista que todos julgávamos enterrada desde a derrota das “Corn Laws” em 1846? Ou vai restaurar o ideal marítimo sempre defendido por Winston Churchill — “comércio livre com o resto do mundo, independentemente do que o resto do mundo pratique em troca”?

Este ponto será também de crucial importância para as relações entre a UE e o Reino Unido após o Brexit. Alguns círculos continentais preconizam negociações draconianas para impedir o acesso britânico pós-Brexit à livre troca com o continente. É uma reação compreensível, ainda que tremendamente errónea. Mas o ponto crucial é que não deve servir de pretexto ao proteccionismo de Londres. O Canadá, a Austrália e a Índia já manifestaram interesse em acordos bilaterais de comércio livre com as Ilhas Britânicas — e esse interesse deveria ser calorosamente correspondido por Londres.

Se o Reino Unido negociar a abertura do seu comércio ao resto do mundo, enquanto negoceia a saída da União Europeia, reforçará também a voz dos seus amigos no seio da UE. Entre estes, encontra-se seguramente a Alemanha — por muitas e nobres razões.

O “interesse próprio esclarecido” da Alemanha não é uma União Europeia uniformemente “sempre mais integrada”. Esse caminho ilusoriamente unificador já criou fortes divisões que estão a ser habilmente exploradas por extremistas de esquerda e de direita — que querem fazer da Alemanha o “bode expiatório” da estagnação económica produzida pelos corporativismos domésticos de outros países. Não compete à Alemanha tentar modernizar atavismos dos outros — sob pena de não conseguir modernizá-los e de obter em troca o ressurgimento dos seus próprios atavismos nativos.

Por outras palavras, é importante que a União Europeia exprima o reforço da sua unidade após o voto de saída do Reino Unido. Mas é igualmente importante que essa unidade seja orientada para reforçar a aliança global das democracias e o comércio livre de que elas são o alicerce.