O nonagenário fotógrafo americano Robert Frank, autor de “The Americans” (1958), o livro prefaciado por Jack Kerouack que revolucionou a fotografia nos EUA e é considerado como um dos mais influentes do género publicado na segunda metade do século XX, bem como de uma série de filmes, não gosta de ser entrevistado, como diz logo nas imagens de arquivo de abertura deste documentário biográfico. “Não gosto que me digam para olhar para a câmara, que me peçam para pôr a cabeça nesta ou naquela posição. Já basta que eu tenha que pedir isso às pessoas que fotografo.”
Felizmente, Laura Israel, a autora de “Don’t Blink-Robert Frank’, que passa hoje no IndieLisboa (Secção Director’s Cut, Cinemateca, 19.00), é sua colaboradora e montadora dos seus filmes e vídeos desde os anos 90, pelo que temos pleno acesso às opiniões, à intimidade, às fotografias, às imagens e às recordações de Frank, nascido na Suíça e reinventado como americano, incluindo uma sequência inédita do seu documentário de 1972 sobre os Rolling Stones, “Cocksucker Blues”, que a banda de Mick Jagger e Keith Richards tentou censurar, por revelar demais sobre o consumo de drogas e a promiscuidade sexual nos bastidores de uma digressão americana dos Stones.
https://youtu.be/i-W2s-U3QBw
É uma viagem animada, por vezes melancólica pelo passado, entre familiares, amigos (quase todos artistas em variados graus de excentricidade), desgostos (a filha que morreu aos 20 anos num desastre de avião, e o filho atingido por perturbações mentais), recordações pessoais e profissionais, muitas fotos e alguns excertos de filmes (onde surgem nomes como Christopher Walken, Tom Waits, Ed Lachman ou Patti Smith) opiniões sobre fotografia, cinema e arte em geral, de um um gigante da fotografia que se define como “um homem das margens, nunca gostei de andar no meio da estrada” e que mantém o bom-humor, o gosto de trabalhar, tirar retratos e fazer vídeos maneirinhos sobre o mundo que o rodeia. É o caso de “Paper Route”, sobre o homem que distribui de manhãzinha os jornais na região costeira onde os Frank têm uma casa, e a que o fotógrafo e cineasta chama “o filme mais feliz que já fiz”.